O PRIMEIRO ANO DO GOVERNO VÁZQUEZ NO URUGUAI

Por Alex Moraes*

Força política transformadora

Em 1971 foi fundada no Uruguai, sob a liderança de Líber Seregni, uma força política transformadora que estaria destinada a modificar radicalmente o curso da história daquele país, a Frente Ampla. Após mais de 30 anos de luta incessante que superou terríveis provações (como a ditadura militar que se instaurou na República Oriental em 1973 e perdurou quase 15 anos), a Frente Ampla logrou um importantíssimo triunfo eleitoral em outubro de 2004, que levou Tabaré Vázquez, do Partido Socialista, à Presidência. A derrota dos partidos tradicionais uruguaios (Blanco e Colorado) também se deu no parlamento, ficando os frenteamplistas com a maioria das cadeiras.

Dificuldades que persistem e alternativas que se apresentam.

Pouco mais de um ano após a vitória progressista, viajei a Montevidéu para acompanhar durante alguns dias o cotidiano de um país de decidiu mudar. Os uruguaios, quebrantados por mais de uma década de animalesca ditadura militar ademais de sucessivas crises econômicas que aniquilaram a produção nacional, ainda estão imbuídos de uma espécie de pessimismo. A gente trabalhadora caminha pelas antigas ruas do Centro com o olhar fixo no chão. Os jornais expostos nas bancas de revista noticiam uma ascensão da criminalidade. O consumo de drogas pesadas entre as camadas menos abastadas da população está se tornando mais freqüente.

O governo da F.A. tem se esforçado bastante em programas de emergência para resgatar da condição de miseráveis a milhares de uruguaios. Outro desafio que se impõe para a esquerda é reanimar a produção nacional. Em reunião recente com seus ministros, Tabaré Vázquez assinalou que colocará em marcha o que ele chamou de “Uruguai produtivo”. O pagamento da dívida externa e a adoção de medidas protecionistas para favorecer setores menos guarnecidos da economia nacional não estão na pauta de ações principais do seu governo. No âmbito da integração latino-americana, os progressistas têm investido em projetos de vanguarda, como a TeleSul, da qual o Uruguai participa juntamente com Argentina, Cuba e Venezuela. Tratados comerciais exclusivos com os Estados Unidos não são cogitados pelo governo, que dá primazia ao fortalecimento dos vínculos econômicos dentro do próprio Mercosul.

Sinais concretos da nova consciência

Mesmo incipientes, as primeiras mudanças experimentadas pela sociedade uruguaia já dão vazão a certas ações que apontam no sentido da formação de uma nova consciência. À continuação, exponho exemplos concretos. Uma das forças políticas que compõe o novo governo, o MPP (antigos Tupamaros), organizou um fundo de empréstimos para o fomento de atividades produtivas que visem o incremento da renda das pessoas. Este fundo é alimentado por doações de militantes do MPP que ocupam algum cargo público. Os projetos que serão financiados pelo Fundo Raúl Sendic agraciarão desde pessoas que necessitam dinheiro para comprar uma máquina de cortar grama até as que pretendem construir um forno para elaborar pão caseiro. Não será cobrada formalmente uma taxa de juros, ficando a cargo do solicitante do empréstimo entregar uma quota a mais ou não para o Fundo no momento de saldar o débito.

Durante minha estadia no Uruguai, outro fato me chamou a atenção, não só por ter se tratado de uma vitória popular, mas também por simbolizar uma louvável inversão de valores. Recebi noticias da ocupação de um curtume por seus empregados. Depois soube que os proprietários haviam invadido, armados, a empresa, retirando a força os operários do interior do recinto. Esta medida gerou revolta e em questão de horas, uma multidão de trabalhadores fazia vigília na frente da indústria. A força policial interveio mas, em vez de dispersar os operários (procedimento usual nestas nossas democracias crioulas), solicitou aos empresários que deixassem o curtume e permitissem a rua re-ocupação. O Ministro do Trabalho classificou de “criminosa” a ação dos donos da empresa e os obreiros assumiram novamente o controle do estabelecimento, dando continuidade, assim, a sua jornada de luta por melhores condições salariais.

O governo frenteamplista também está fomentando na sociedade uma grande discussão à respeito da necessidade de reparação de danos (ainda que tardia) aos presos políticos. Todos esses episódios demonstram que novos ventos arejam o pampa uruguaio.

Vivendo o dia-a-dia com os uruguaios

Dez dias é um período muito curto para tentar saber o que é um povo em essência. A imagem que sempre tive dos uruguaios foi a de uma gente desesperançada, mas nas ruas de Montevidéu vi sinais de superação da desesperança. Procurei transitar pelos ambientes onde de fato acontece a vida das pessoas que vivem na cidade. Tomei ônibus, passeei pelo Centro e, de noite, freqüentei um bar muito típico, o Mincho.

Pelas mesas do Mincho passam trabalhadores recém saídos da sua jornada laboral diária, alguns músicos, funcionários públicos e alcoólatras profissionais. Os turistas preferem o calçadão da Cidade Velha, a feira que quinquilharias da praça da matriz, a praia de Pocitos e as lojas que se encontram no final da avenida 18 de Julho, cujos preços, nas vitrines, são mostrados em dólares.

Os uruguaios me parecem muito peculiares. Conversando com um deles, ouvi o seguinte: “Somos um país de idéias, se tivéssemos tantos habitantes quanto idéias, tudo seria diferente”. Perguntei-lhe: “Diferente como?” Ele se limitou a responder: “Aí está a pergunta...”. Arrisco-me a dizer que, finalmente, a população uruguaia começou a solucionar esta grande incógnita, superando, aos poucos, as tristezas que maltrataram, como chagas, o seu íntimo; construindo o amanhã de modo que ele não se apresente como mera cópia do hoje.

*Membro da União da Juventude Socialista
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